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Arlindo Machado


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OTÁVIO DONASCI E O VIDEOTEATRO   

Otávio Donasci é um nome conhecido e reconhecido nos cénarios teatral performático e videográfico do Brasil desde a década de 70. Profissionalmente, ele atua como diretor de criação e de espetáculos multimídias, além de produtor de eventos especiais. Na década de 70, trabalhou como cenógrafo de teatro, tendo recebido, em 1984, os prêmios APCA e Mambembe pelo conjunto de sua obra nessa área. Nos anos 80, após algumas experiências no campo da vídeo-arte, iniciou suas videoperformances, que foram apresentadas em festivais de vídeo do Brasil e do exterior e que lhe valeram o Prêmio Lei Sarney de Arte Multimídia, em 1988. No início dos anos 90, trabalhando em conjunto com o diretor Ricardo Karman, criou as Expedições Experimentais Multimídia (Viagem ao Centro na Terra, em 1992, e a Grande Viagem de Merlin, em 1994), gigantescos espetáculos interativos que envolviam teatro, turismo e artes plásticas.

    Mas o projeto que deu a Donasci a maior notoriedade foi, sem dúvida, o do videoteatro, primeiramente através de suas videocriaturas e postariormente através de suas performances multimídias; A idéia básica da videocriatura era criar um híbrido, uma espécie de cyborg, metade gente metade máquina, utilizando um monitor de TV colocado, através de armações de plástico, em cima de um ator escondido sob mantos pretos. A tela de monitor, ligada a um gravador de vídeo por cabos ou por transmissão sem fio, nos mostrava a imagem de um rosto recitando monólogos ou dialogando ao vivo com o público ou com outras videocriaturas. A tela era portanto, a cabeça do ator e ficava fixa sobre o seu corpo, enquanto este atuava no espaço cênico. O resultado era uma espécie de Mr. Hyde ou mosntro de Frankenstein, que circulava pela cena arrastado seus cabos e atormentando os espectadores. Tudo bastante low tech, feito com equipamento doméstico de vídeo e recursos artesanais, improvisado á maneira brasileira, com os conhecimentos de eletrônica que Donasci foi adquirindo na prática.

    A proposta de Donasci para as suas videocriaturas é simples e precisa. Trata-se de ampliar os recursos expressivos do ator com a incorporação da linguagem dos meios audiovisuais. Quando o personagem morre, por exemplo, seu rosto vai aos poucos saindo do foco; quando ele está esbravejando contra o público, sua boca vai crescendo na tela, através de uma abertura de zoom, até ocupar todo o rosto. Ao mesmo tempo, o vídeo ganha a dimensão cênica do teatro, libera-se da fatalidade bidimensional e pode relacionar-se fisicamente com a platéia. Na sua fase atual, o projeto das videocriaturas visa utilizar uma tela de cristal líquido bastante fina e dobrável, que o ator poderia colocar sobre o seu rosto como se fosse uma máscara eletrônica, revivescência moderna das antigas máscaras do teatro grego. Em síntese, o videoteatro de Donasci faz uma espécie de “costura” eletrônica de vários recursos simbólicos, criando uma linguagem híbrida, que une as formas mais antigas de expressão da humanidade com as mais recentes.

    Vários protótipos de videocreaturas foram experimentais. O mais antigo, que corresponde a descrição feita acima, é também o mais conhecido. Existem variantes, entretanto. O videofantoche (1984), que utiliza um monitor de apenas cinco polegadas, imita perfeitamente um bonequinho de teatro infantil que se manipula com os dedos, com a diferença de que eleva as possibilidades fisionômicas do fantoche ao infinito. Uma videocritura enorme, que utiliza um monitor de vinte e quatro polegadas em cima de dois atores, foi mostrada em 1984 no Festival Videobrasil, em São Paulo. Nesse mesmo festival, Donasci mostrou também a mais importante inovação de seu projeto: a tomada e exibição do rosto da videocriatura em tempo real, condição básica para permitir a improvisação, a interatividade e o videotauro (1985), o videobusto (1986), o videovivo (1988), o videopau (1990), o wallcreature (1990), o videocapacete (1990), o videolão (1990), a videoboca (1990), as videopersonas (1990), etc.

    As mais recentes invenções de Donasci são as chamadas performances multimídia, que possibilitam ao videoteatro avançar ainda mais um passo. Por exemplo: na performance apresentada por ocasião na 20ª Bienal de São Paulo (1989), podia-se ver um ator contracenando ao vivo com a imagem de uma mulher projetada num telão. Como esse telão foi confeccionado num tecido bastante elástico, a atriz que forneceu a imagem projetada pôde, ela própria, colocar-se atras da tela e modelá-la com seu corpo, sem ser vista pelo público. A impressão que tem o público é de que a imagem da mulher, projetada no telão, torna-se viva e tridimensional, permitindo ao ator “real” abraça-la e até mesmo fazer amor com ela no palco. O mesmo processo foi utilizado por Donasci, mas com ainda maior radicalidade, na encenação de Marcelo Paiva 525 Linhas, também em 1989.

    A cada nova experiência, Donasci destila o seu processo e avança na direção da síntese do teatro com as novas tecnologias. No Videobrasil de 1992, ele dá mais um passo nesse sentido: as telas agora flutuam no espaço, separadas por ventiladores; os projetores, colocados sobre carrinhos, movimentam-se na cena, perseguindo as telas; as imagens sobrevoam as cabeças dos espectadores, chocam-se contra estes na platéia. Quando se supunha que nada mais havia para se fazer com vídeo, o projeto de Donasci surge como uma alternativa absolutamente original, apontando caminhos ainda sequer suspeitados por encenadores teatrais, performers ou videoartistas.


Crítica de Arlindo Machado

 



Otávio Donasci
www.videocriaturas.cjb.net
donasci@hotmail.com


 

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